sexta-feira, maio 03, 2013

Capitu




Quem é ela?

Via o seu sorriso sem saber
Se era meu. Se existia
Seria a mim que ele queria?

Quem é ela?

Quando a noite chega seus medos somem
Já era mais mulher do que eu homem
Tão segura. Tão distante.

Quem é ela?

Sempre tão certa do que fazer
Como copiar seu ar blasé
Se aos quinze anos, tudo é infinito?

Quem é ela?

Na inocência de menino
Reconheci sem perceber
Seu Dom de receber
Em suas mãos o meu destino

Quem é ela?

Espiei pela janela
Vi o que a faz amada:
Uma alma tão humana
Olhos lindos de cigana
Oblíqua e dissimulada.
És tu, Capitu!


sexta-feira, março 08, 2013

Refúgio

Quarto escuro
Porta trancada
Não há lua ou estrela que ofereça consolo
Quem dirá que há amanhã?

Sim. Somos capazes de coisa pior.

Por que a gente é assim?

Fecho os olhos e digo baixinho:
"Eu não sou"

sexta-feira, agosto 31, 2012

Ainda há tempo



As ruas estão cheias
Eles vêm. Eles vão
Tropeçam nos calcanhares
Se esbarram na contramão

Miram o horizonte que se esconde atrás do outro

Não trocam mais olhares
São tantos mundos. Todos absortos.
Sem nave - sem flor.
Sem o amigo que se forjou.

São tantos. Estão sós. 

terça-feira, julho 10, 2012

O apanhador no campo de centeio


O mundo pesou sobre mim
Fez morada em meus ombros
Hospedeiro cruel e implacável,
Roubou-me a esperança da chegada

Ode à leveza do vôo rasante
Dos passos da ave que caminha sobre as águas
Sem manual de comportamento
Sua cartilha é sua vontade

Ah, Caulfield! Quero a liberdade de não me importar
Ser apenas um Apanhador no campo de centeio 

sexta-feira, junho 22, 2012

Sorri



Meu coração reconheceu teu sorriso.
Bateu desembestado
Feito zabumba aperreada
Na mão do forrozeiro.

Foi como na primeira vez que te vi
Quando eu, ainda menino
Fazia guerra de juá no pátio do colégio
Me sentindo tão gente grande

Te vi sentada nas escadinhas
Deus do céu, tu já eras tão linda!
Porque eu era tão criança
E tu tão mulher?

Desde aquele dia
O sol apareceu e fugiu um bocado de vezes
A lua cansou de beijar o velho Chico
Aquele pátio virou querência da memória

Mas tua graça persiste
O resto do mundo é ponto cego se você sorri

quarta-feira, junho 13, 2012

Rosa de Saron


Teus olhos miraram o horizonte em busca de paz
Vasculharam gotas de esperança, de amor
Não porque não as encontra em ti
-As têm em abundância e de forma singular-

Mas porque faz parte da tua grife
Estás na estrada e em busca.
Teu verbo se apaixonou pelo gerúndio
Amando, rindo, chorando, cuidando, lutando

O tempo perdeu a linearidade ao te encontrar
Tens as marcas das batalhas estampadas nas mãos e no rosto
Tens a empolgação da adolescência descobrindo o mundo

A sobriedade da mãe protetora, da fêmea líder do bando
O sorriso da criança sendo apresentada à vida, da mulher habitat da beleza

Oficio de subversão. És a Rosa de Saron
Teimando em ser flor, quando a vida lhe impera deserto

sábado, junho 02, 2012

Libelo


Se os opostos se atraem
Nossas querelas são diferentes
Correm na contramão da tal “verdade”                                    
Distanciam-se sob uma gravidade inversa

Fiz-me prisioneiro desse avesso
Violentado na rotina de não ser eu
Exilado de minha querência
Adúltero da amada Pasárgada  

Escolhi o eu errado pra ser